Gilberto YoshinagaEm 14 anos de Japão nunca tive nenhum problema com o trabalhoVim para o Japão pela primeira vez em 1991, meio “sem querer”. Um amigo planejou vir, me convidou e eu topei, com um espírito meio aventureiro – na época, eu tinha 19 anos. Minha idéia era permanecer aqui por uns cinco anos, mas acabei gostando do país e das oportunidades que ele oferece. Desde minha primeira vez, voltei para o Brasil três vezes e, nesta quarta estadia, estou trabalhando em uma fábrica de autopeças, em Takao (Aichi).

Em quase 15 anos no Japão, nunca tive nenhum problema de trabalho. Já estava acostumado a trabalhar e não tive dificuldades de adaptação, nem achei a rotina tão pesada quanto ouvia dizer. No emprego atual, opero um torno computadorizado, um tipo de robozinho que produz peças para montadoras. A cada minuto, a máquina produz uma peça e tenho uma cota de 800 a 900 para produzir por dia. Das outras vezes em que estive no Japão, já havia tra balhado no mesmo setor em fábricas diferentes. Por isso, não tive dificuldades em pegar o serviço. Falo japonês, mas não leio e nem escrevo comfluência. Mas isso não interfere na execução do trabalho porque decorei os procedimentos para operar a máquina.

Sou casado e tenho duas filhas, uma de 7 anos e outra de 1 ano e 8 meses, que estão no Brasil. Trabalho 11 horas por dia, três delas fazendo hora extra (zangyo), para ter renda para me manter aqui e enviar dinheiro a minha família. Estou contente com meu atual serviço e não penso em mudar de emprego, até porque dou muito valor à estabilidade. Confesso que a saudade da família é grande, não passo uma semana sem telefonar para São Paulo, para poder ouvir a voz da minha esposa e minhas filhas. Mas espero voltar a viver com elas ainda este ano e o plano é permanecermos aqui por mais dez. Acho que este período será suficiente para ter uma vida mais tranqüila no Brasil e oferecer um bom padrão de vida e de educação para as minhas pequenas.

De 1991 para cá, vi muita coisa mudar no mercado de trabalho aqui do Japão. No início, não tí nhamos a estrutura brasileira que existe hoje, com diversos produtos e serviços específicos para a comunidade.

As dificuldades eram enormes, pois quando cheguei não entendia muito bem o idioma japonês. Mas os benefícios de trabalho eram melhores, pois a média salarial era mais vantajosa e quem chegava do Brasil ganhava mais eletrodomésticos das empreiteiras. Com o passar do tempo, alguns trabalhadores começaram a abusar dos benefícios e as empreiteiras passaram a cortá-los – para todos.

Desde os 13 anos, eu já trabalhava no comércio e sempre procurei desempenhar minha função da melhor forma possível. Há quem enfrente situações ruins com pouco tempo de vida no Japão, mas eu nunca passei por qualquer situação em que eu me considerasse injustiçado.

Acredito que trabalhando corretamente e com disciplina, cumprindo a meta de trabalho estipulada pela empresa, não há como algo dar errado. É claro que existem empreiteiras ruins, que iludem ou enganam trabalha dores, mas também há boas empreiteiras, que valorizam o bom funcionário.

Flavio Kato, 34 anos, morador de Kanie (Aichi) em depoimento ao repórter Gilberto Yoshinaga