Maria Yoshie Shiraishi
Médica, especializada em pediatria

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Hérnia são situações em que certos órgãos “entram” em compartimentos vizinhos aos quais não pertencem. No caso das hérnias inguinais em bebês, o intestino desce para a região inguinal e, não raro, para dentro do saco escrotal ou escroto. Para saber como isso acontece, precisamos entender primeiro como ocorre a migração dos testículos (as “bolinhas”) para dentro do saco escrotal (“saquinho”).

Os testículos se formam na vida intra-uterina próximos aos rins, na região lombar. Conforme se aproxima o final da gravidez, eles migram, através de um canal, para dentro dos sacos escrotais. Esse canal fecha depois de cumprida a missão, mas em alguns bebês, mesmo após o parto, ele se encontra aberto. Por se tratar de uma comunicação entre o interior do abdômen e o saco escrotal, por meio dele desce uma parte do intestino, estimulada pela força da gravidade ou por esforços. Assim se forma a hérnia inguinal (quando fica na virilha) ou inguino-escrotal (quando entra no “saquinho”).

Nas meninas, existe um canal semelhante, por onde descem os ligamentos que fixam o útero em seu devido lugar. Portanto, elas também podem ter hérnias inguinais.

Quando a criança chora ou se esforça, o intestino desce e faz um abaulamento na região da virilha ou no escroto. A hérnia não é dolorosa até que se encarcere, ou seja, haja estrangulamento do intestino dentro do escroto, diminuindo a circulação e levando à isquemia (falta de circulaçãosangüínea) e à necrose (apodrecimento) da alça do intestino.

O encarceramento é emergência cirúrgica em qualquer idade. Caso contrário, a operação é eletiva, rápida e necessária independente de idade ou sexo, pois os canais não fecham sozinhos. Os sinais de estrangulamento ou encarceramento da hérnia são: dor intensa com choro inconsolável, podendo ou não haver vômitos; abaulamento e endurecimento da região escrotal com incidência de calor; parada de eliminação de gases e fezes. Normalmente, os pais procuram o serviço de emergência por choro contínuo. É possível desencarcerar a hérnia com manobras específicas, retirando o bebê da situação emergencial, o que é feito quando o problema é recente.

Toda hérnia em bebês requer acompanhamento pediátrico e cirúrgico, mesmo sem nunca ter encarcerado. Crianças com hidrocele (“água no saquinho”) por mais de seis meses podem ser potenciais desenvolvedores de hérnia inguinal.

Publicado originalmente no site do jornal Tudo Bem em 07/01/2006.