Divulgação/GloboNa novela Alma Gêmea, a personagem Alexandra (Nívea Stelmann) sofre delírios e alucinaçõesQuem assiste à novela Alma Gêmea já reparou que a jovem Alexandra, personagem da atriz Nívea Stelmann, tem comportamentos estranhos: ela ouve vozes, sofre alucinações e acha que está sendo perseguida. As vezes, é agressiva e quebra objetos. O diagnóstico: esquizofrenia.

O nome assusta, mas, diferente do que se vê na telinha, a doença não é um bicho-de-sete-cabeças. Com o avanço da medicina, é possível controlá-la e fazer com que o paciente leve uma vida praticamente normal, integrado à família e à sociedade. Assim como no filme Uma Mente Brilhante, de Ron Howard, em que o protagonista, o matemático John Nash (Russell Crowe), superou todas as dificuldades provenientes do mal, casou, teve um filho e ganhou até um Prêmio Nobel.

Causas e sintomas
Ainda não há um consenso sobre a causa da esquizofrenia. Sabe-se apenas que ela é decorrente de alterações químicas no cérebro e se manifesta entre o final da adolescência e o início da vida adulta. “É uma doença gradual e que pode passar despercebida no começo, já que muitas vezes as queixas do paciente são ignoradas”, diz Mário Louzã, psiquiatra do Hospital das Clínicas de São Paulo e professor doutor da Faculdade de Medicina da USP. Homens e mulheres são afetados em proporções iguais - 50% -, sendo que neles o distúrbio aparece um pouco mais cedo.

Os sintomas, basicamente, são: delírios (pensamentos incompatíveis com a realidade, mania de perseguição e sensação de que a mente é controlada por alguém); alucinações (percepção distorcida; a pessoa ouve vozes e acha que estão falando dela, criticando-a); alterações no pensamento (que perde a seqüência lógica e fica desconexo) e na afetividade (o indivíduo torna-se mais frio emocionalmente); e desinteresse pelas atividades cotidianas. Fatores genéticos, externos (uso de maconha e outras drogas na juventude) e ambientais influenciam em seu surgimento. “Há uma somatória de fatores. Um trauma no parto, ou uma doença infecciosa contraída pela mãe na gestação, pode afetar o desenvolvimento do sistema nervoso central do bebê e resultar em esquizofrenia no futuro”, explica Louzã.

Uma vez apresentado, o mal dura para sempre - não existe cura. No geral, o paciente alterna momentos de sintomas intensos (surtos) e outros de controle total ou parcial (remissão). O tratamento deve ser constante - o que previne e controla os surtos - e é aplicado, principalmente, com base em medicamentos. “Outras atividades também são essenciais, como terapia ocupacional, psicoterapia e orientação psicoeducacional”, reforça o médico. A internação em hospitais psiquiátricos só é recomendada nos momentos de crise, por períodos de até 15 dias, para proteger o próprio doente, que pode tentar o suicídio.

Apoio da família
Como em qualquer outra enfermidade mental, o apoio dos familiares é fundamental no progresso do esquizofrênico. Isso porque, na maioria dos casos, ele não consegue perceber que é vítima de um distúrbio. “Geralmente, ele acha que o mundo está errado. E esse é um dos maiores obstáculos do tratamento”, afirma Louzã. Cabe ao psiquiatra fazê-lo entender que há uma doença em jogo. E que, se controlada, ela não vai prejudicar sua rotina.

Avanços
Ao contrário do que muitos pensam, a esquizofrenia não encurta a vida de seu portador, e dificilmente vem atrelada a doenças similares (demência e depressão, por exemplo). “O importante é detectar o problema rapidamente e iniciar o tratamento de imediato”, alerta o especialista. Recursos para isso não faltam: hoje, existem cerca de 20 remédios diferentes no mercado, cuja dose varia de acordo com a situação de cada paciente, e que desencadeiam poucos efeitos colaterais - com a vantagem de que o organismo não se “acostuma” a eles. “É como se cuidássemos de uma pressão alta”, compara Louzã.
Andressa Christofoletti Viviani, de São Paulo

Matéria publicada na edição #658 do Jornal Tudo Bem

Publicado originalmente no site do jornal Tudo Bem em 15/01/2006.