Silvio Sano
escritor, autor de Sonhos Que De Cá Segui.

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Nesses quase vinte anos do movimento dekassegui muito se tem discutido sobre o tema, com seminários e palestras realizados em ambos os países. No fim, as conclusões, quase sempre, acabam direcionadas aos danos causados pelo choque cultural, à separação de famílias ou às conseqüências aos filhos. Trata-se, na verdade, à primeira vista, de situações previsíveis. Afinal, o novo lugar de morar, do outro lado do mundo, tem cultura completamente diferente e separação “contra a vontade” de entes queridos nunca foi bom para ninguém.

Até tivemos exemplos disso, e muito próximos de nós, pelos nossos ancestrais quando para o Brasil emigraram. Por isso, causa estranheza constatar o quão despreparada veio a grande maioria dos nossos dekasseguis ao Japão, porque se pressupunha que tivessem ciência das dificuldades que encontrariam por aqui, iguais as que passaram os próprios ancestrais no Brasil.

Qual a explicação para isso, senão à uma realidade que as pesquisas ligadas à problemática têm desconsiderado e que nunca vi abordado naqueles seminários: da alienação dos nikkeis em relação às próprias raízes; do desconhecimento das agruras passadas pelos ancestrais, que lhe entregaram, de “mão beijada”, a imagem de respeito, consideração e honestidade que, ora, desfrutam perante a sociedade brasileira.

O que isso tem a ver com o nosso “bate-papo”?
Muito. Porque faz evidenciar a ausência do diálogo entre gerações, algo muito típico em nossa comunidade. A imagem de família exemplar que passam à sociedade, encobre, na verdade, a falta do elo íntimo entre as partes. A “incansável dedicação” dos papais ao trabalho, na busca obsessiva por posição social, para a “felicidade” geral da família, parece impedilos de perceberem que a felicidade desejada é outra. Muitas vezes, de nada adianta, nem mesmo, uma boa formação, se não houver diálogo franco e honesto, com envolvimento real de ambas as partes, vontade para superá-los… e uma cota de sacrifício. Por isso, arrisco um recado aos colegas dekasseguis com famílias no Japão: “Que tal trocarem umas horas de zangyo por algumas com a família? Não é bem o desejado, sei disso, já que vieram em busca de fazer logo o “pé-de-meia”. Mas não seria muito melhor esticarem um pouco mais a estada no Japão em prol de um bom relacionamento familiar, do que retornarem com a família completamente desestruturada? Além disso, como o choque cultural é inevitável, com a família unida o enfrentamento desses problemas fica bem mais fácil. Isso vale também aos que decidirem ficar em definitivo no país.

Agora, ao contrário, com a família desagregada, a situação se agrava e vai estourar, para variar, no lado mais fraco: os filhos. E pior ainda daqueles deixados no Brasil sob custódia de parentes. Arrisco um recado também aos que tiveram de deixar cônjuges e filhos no Brasil: “Que tal minimizar as conseqüências nefastas dessa separação, por contatos indiretos mais freqüentes (cartas, telefones, emails), pois ajudam a manter o vínculo… e não custam quase nada?” Não é a ideal, lógico, mas já é uma atitude, uma intenção.

Família unida, sim, garante “pé-de-meia”… não o contrário.