Mesmo na linha de produção, onde o serviço costuma ser repetitivo, o resultado de um trabalhador nunca é igual ao outro.

O desafio é ser um ovo diferente dentro da cesta. É preciso descobrir e usar suas habilidades a seu favor. Em uma fábrica de bentoya, quem consegue trabalhar com as duas mãos com agilidade atinge um índice maior de produtividade. Em determinada linha de eletrônicos, quem tem olhos de águia para manusear peças minúsculas ganha mais pontos. No setor de autopeças, quem for detalhista pode ser transferido para o setor de inspeção, que exige menos força física e mais senso de observação. Enfim, os trabalhadores precisam ter consciência que o trabalho na fábrica“não é tudo igual”.

Além de identificar suas habilidades, o trabalhador diferenciado tem mais duas qualidades:

1 - domínio do idioma japonês
2 - assiduidade

Sendo um trabalhador diferenciado, sobem as chances de ser valorizado pelo empregador. O reconhecimento pode vir na forma de bônus em dinheiro ou mais “regalias”.

Ou seja, há vantagens para quem se esforça mais.

Filme queimado
Ao longo dos mais de 15 anos do chamado “fenômeno dekassegui”, a realidade da comunidade brasileira no Japão passou por diversas mudanças. Por um lado, o contingente cresceu e a estrutura verde-amarela evoluiu. Por outro lado, muitos fatores ajudaram a “queimar o filme” dos brasileiros. Entre eles, os casos de criminalidade (conceito generalizado por boa parte dos japoneses), o desleixo e a “malandragem” de alguns trabalhadores e as próprias diferenças culturais. Essa “má” imagem moldada ao longo dos anos ajudou a desanimar muita gente que chegou ao Japão com sonhos e plena disposição para o trabalho e, hoje, se sente o “Patinho Feio” da linha de produção, sem perspectivas tão animadoras.

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Susana Tsuchida: dedicação e bom relacionamento com colegas ajudam a valorizar o trabalhador

A boa notícia é que é possível contornar esta situação. A Gambare! relacionou as atitudes que ajudam um funcionário a ser mais valorizado. Para Susana Tsuchida, da empreiteira Just One, de Anjo (Aichi), a assiduidade é um ponto fundamental. Segundo ela, algumas fábricas até compreendem que, ocasionalmente, um funcionário precise se ausentar do trabalho, desde que não sejam cometidos abusos. “O que não é tolerado, mesmo, é a falta de comunicação. Há funcionários que deixam de ir trabalhar e nem sequer avisam a empresa, o que é inadmissível”, diz.

“Outras qualidades muito valorizadas são as que incidem diretamente sobre a produtividade, como a dedicação ao trabalho e o bom relacionamento com os colegas.”

“Quem demonstra esforço para aprender o nihongo ou se familiarizar mais rapidamente com o ritmo e as técnicas de trabalho certamente é mais valorizado”, explica Minoru Suzuki, 52 anos, tantosha da empreiteira Marusan, de Nishio (Aichi). Mesmo que este conhecimento não seja exigido por determinada vaga, poderá representar um diferencial importante em alguma ocasião futura.

0211_vale_a_ademar.jpgAdemar Ota: brasileiros não aceitam desaforos e preferem bater boca com o superior japonês“Conhecimento nunca é demais. Ninguém deve estacionar no tempo. Além disso, se a pessoa está em outro país, onde a cultura é diferente, assimilar essas diferenças é praticamente uma obrigação.” Para o tantosha Ademar Kazuhide Ota, 50 anos, da empreiteira Real System, de Nagoya (Aichi), duas qualidades que são muito valorizadas pelas empresas japonesas são a calma e a humildade. “Muitos superiores japoneses gritam com os funcionários, mas isso é um costume deles, mal compreendido pelos brasileiros que não gostam de engolir desaforos”, explica Ota.

“Se o superior bronqueou com a pessoa errada, ce do ou tarde ele vai perceber que estava errado e terá um bom conceito um bom conceito daquele que pediu desculpas mesmo sem ter sido o culpado pela situação desagradável.”

Compensações
Vale “engolir sapos”, dedicar-se ao emprego e esforçar-se para sempre melhorar seu desempenho e aprender o nihongo e novas técnicas de trabalho? Apesar de muitos trabalhadores desacreditarem, essas atitudes são, sim, recompensadas pelos japoneses. Para quem não falta, há bônus por assiduidade, que pode chegar até a 10 mil ienes por mês. Além disso, um funcionário elogiado pelas empresas pode obter remunerações melhores, ser promovido ou até ter sua vaga assegurada, em caso de ter de viajar para o Brasil com o desejo de voltar.

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