Situação 1: o funcionário é novo na fábrica e seu bom desempenho no trabalho começa a lhe render elogios dos superiores. Então, um “veterano” começa a circular boatos de que ele é “puxa-saco”, de que é uma pessoa falsa ou de que faz o trabalho mal-feito. A bomba estoura quando este novo funcionário perde a paciência e deixa a boataria influenciar negativamente em seu trabalho.
Situação 2: dois funcionários de uma mesma linha de produção se desentendem e começam a travar uma “guerra de nervos” por meio de “fofocas”. O estranhamento se intensifica até que um deles começa a passar peças defeituosas propositalmente, com a intenção de prejudicar seu desafeto - mas acaba atingindo colegas que não têm nada a ver com o rolo e causando transtornos para a empresa.
Situação 3: duas funcionárias que “não se bicam” começam a tentar formar “panelinhas”, trocando ofensas pelas costas. A inimizade acaba contagiando outras funcionárias, cria um ambiente de trabalho negativo e culmina com a queda da produtividade. O tantosha é acionado para tentar apaziguar o desentendimento ou, em alguns casos extremos, até mesmo separar brigas na própria linha de produção.
O estresse gerado nas fábricas contribui para o surgimento das fofocas - Auro KotsuboFalar mal do outro, principalmente do chefe, é um dos esportes preferidos em qualquer ambiente de trabalho. Para os brasileiros, o assunto ganha uma dimensão ainda maior, pois a maioria passa a maior parte do seu tempo dentro da fábrica. Desentendimentos, fofocas e intrigas são inevitáveis. A situação começa a ficar preocupante quando as notícias veiculadas na “rádio peão” ou “rádio corredor” começam a ganhar força e se tornam uma avalanche. Ou seja, a mentirinha, de tanto ser repetida, começa ser aceita como verdade. Mas é possível não só reverter a situação como virar o jogo a seu favor. A Gambare! coletou as principais dicas de empreiteiras e trabalhadores para evitar que os problemas de relacionamento prejudiquem sua produtividade, arruinem sua imagem e ainda “contaminem” toda a linha de produção.
Brigar na fábrica é uma atitude que arranha a imagem de toda a comunidade - Tetsuji TanakaNem sempre a fofoca é negativa. Receber informações que circulam no ambiente de trabalho pode ser útil para ter mais proximidade com as pessoas, ficar por dentro do mercado de trabalho em outras fábricas, conhecer pessoas novas que entraram na linha. Enfim, o importante é saber filtrar a qualidade de informações que circulam.
O problema é quando as pessoas se deixam contaminar.O funcionamento da linha de produção depende basicamente do trabalho em equipe (reportagem de capa da Gambare, edição 21). Como um depende do outro, o ambiente favorece para que as intrigas prosperem com facilidade. Um dos principais motivos de irritação é sempre com o companheiro de linha. Ou se é criticado porque produz além da média (a fofoca é chamá-lo de puxa-saco). Ou se é criticado porque produz abaixo da média (a fofoca é chamá-lo de preguiçoso). Ao mesmo tempo, a pressão por produtividade acaba gerando uma carga extra de estresse. A impressão que se tem é que o ambiente da fábrica é uma panela de pressão mal regulada, prestes a explodir. Ou seja, uma simples fofoca pode ser apenas a última gota para transbordar o caldeirão.
Quem trabalha com seriedade dificilmente é vítima de fofoca - Paulo YoshimuraO trabalho é pesado, a pressão nas fábricas é grande e muita gente se sente carente. Isso tudo gera um estresse acentuado, que deixa toda pessoa mais suscetível a arrumar algum tipo de desentendimento ou a fofocar sobre a vida alheia”, avalia Auro Kotsubo, diretor administrativo da empreiteira InterCareer, de Nagoya (Aichi). A melhor forma de se desvencilhar dos problemas gerados pelas “fofocas”, na opinião de Kotsubo, é cada funcionário se preocupar apenas com o próprio trabalho e desempenhá-lo com seriedade e profissionalismo. “No Brasil pode até ser possível que algumas pessoas cresçam no emprego apenas na base da conversa. Mas no Japão isso não funciona e a melhor recomendação é trabalhar muito e falar pouco.”
O tantosha Mauro Kimura, da empreiteira Yamato, de Iwakura (Aichi), concorda com a tese de que o estresse “encurta o pavio” de muitos trabalhadores. “Isso cria uma agressividade quase gratuita, ou seja, as pessoas passam a se irritar com facilidade e algumas descarregam essa tensão falando mal dos colegas ou chefes, de forma descontrolada”, analisa ele. O gerente geral da Yamato, Tetsuji Tanaka, lembra que a pior atitude que um brasileiro pode ter na fábrica é perder a razão e partir para a briga - o que não é raro. “As brigas nascem de discussões que, em muitos casos, começam com fofocas bobas. E a pior coisa que um funcionário pode fazer é brigar na fábrica, pois isso prejudica a imagem de toda a comunidade brasileira perante os japoneses”, condena Tanaka. Entre as recomendações feitas por tantoshas para que o trabalhador não deixe as fofocas e intrigas prejudicarem seu desempenho na fábrica, uma delas é fazer o possível para evitar o estresse. Ignorar provocações, “engolir alguns sapos” e jamais reagir de forma agressiva a alguma crítica - mesmo que ela seja injusta - são algumas dicas que ajudam a preservar um bom ambiente de trabalho. Se algum desentendimento for inevitável, o funcionário deve comunicar o tantosha e solicitar uma mudança de setor ou de turno de trabalho, para evitar desfechos verdadeiramente negativos.
“O ideal é que cada um se preocupe apenas em fazer seu trabalho apeda melhor forma possível, sem se preocupar com possíveis provocações e nem ficar querendo cuidar da vida dos outros”, recomenda o tantosha Paulo Toshiharu Yoshimura, da empreiteira Marusan, de Nishio (Aichi).
“Cada pessoa tem um gênio e cada caso é um caso, e isso exige certo jogo de cintura para manter um bom relacionamento com todos. Mas quem demonstra humildade e trabalha com seriedade dificilmente é alvo de fofocas ou intrigas”, finaliza.
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