Silvio Sano
escritor, autor de Sonhos Que De Cá Segui.

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No mês passado, no Rio de Janeiro, moradores próximos de uma área militar (Campo de Instrução de Gericinó, em Ricardo de Albuquerque), invadiram-na a fim de desenterrar carnes com as quais pretendiam se alimentar! Aliás, chegaram a fazer isso! Tratava-se de um carregamento de 76,17 toneladas consideradas impróprias para consumo. Daí o porquê de elas terem sido enterradas ali.

Três pontos devem ser considerados nessa situação: o fato de deixarem estragar tanta carne assim, dentro da nossa realidade sócio-econômica; moradores chegarem a esse extremo, sabendo do risco que corriam, afinal não se enterra tanta carne sem mais nem menos; e, terceiro, o mais grave, o fato de não mais nos surpreendermos com isso. O primeiro chama-se descaso; o segundo, miséria explícita e; o último, banalidade.

No mesmo mês, tivemos o acidente da TAM. Até o momento, não se chegou a conclusão nenhuma, nem de causas e nem de culpados. Também pudera, são tantos. Sem contar o aspecto político das pressões lobistas… Daí, chegar-se a uma conclusão, nesse país, vai ser mesmo difícil, quase impossível. E tem o outro acidente, de meses atrás, que não teve final tampouco.

Considerando-se essa situação, chegamos a dois pontos, coincidentes ao anterior: o do descaso e o da banalidade. No descaso, há vários itens que corroboram “” manutenção da aeronave, pista do aeroporto, altura do prédio atingido etc, todos naquilo que chamamos de atitude. No caso da banalidade, de novo, por não mais nos surpreendermos por isso.

Anos atrás, vi uma reportagem, para mim chocante, sobre a violência urbana no Brasil, mais especificamente, no Rio de Janeiro, em uma de suas favelas. Era sobre o assassinato de elementos de uma gangue, que tiveram as cabeças decepadas e deixadas sobre o capô de um carro.

Até aí, tudo bem (?)… não fosse o fato de que as cabeças tinham sido descobertas por crianças da redondeza, que brincavam com elas, fazendo chacotas. Que pontos se tiram desta situação? Vários… a maioria vinculada ao descaso geral, gerador dessa realidade. Mas o principal é o da postura dessas crianças diante da cena, da banalidade.

Aliás, a própria reportagem também não era tão enfática assim. Ou seja, sintetizando, o culpado disso tudo “” do acidente em Congonhas, da comida estragar, da violência urbana, das favelas, do shopping que cai, da calçada esburacada, do asfalto esburacado, do piso da rua que afunda, do mato que cresce nas praças etc “” é o descaso geral.

Sim, geral, apesar de outras razões também contribuírem. E por se tratar de atitude, e constante, acaba se tornando banal.

Aí está o perigo, porque a indignação acaba se introjetando em si, e se acomodando, enquanto assiste a tudo pela televisão, em casa, trancada por grades próprias.