Silvio Sano
escritor, autor de Sonhos Que De Cá Segui.

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“Quando criança, achava que padre não pecava, professor sabia de tudo, médico curava qualquer doença, policial não roubava, correio cuidava apenas de correspondências, padaria fazia apenas pão, barbeiro apenas barba e cabelo etc. Até que um dia eu cresci…”

Assim começa uma de minhas crônicas em meu último livro, Confrontos & Conflitos, lançado no ano passado. O título: Era tudo Ilusão… Tinha minhas razões, lógico, por isso a escrevi. Bem como as justifiquei e cheguei a minhas conclusões. Adivinhem.

Pois é: desvios ideológicos que se alastram diretamente ligados à situação sócioeconômica do País. Algumas das conseqüências: corrupção, falta de responsabilidade, desleixo, descaso, perda de ideais, abandono da profissão, êxodo (brazucas, braziguaios, dekasseguis) etc.

Completo afirmando que, de tão presentes em nosso dia-a-dia, pensava que não mais me abalaria com as cenas de crimes violentos que vemos na TV. E cito uma cena de chacina no Rio de Janeiro e que ocorrera naquela época, cujos protagonistas eram policiais. Fecho as aspas.

Agora, acompanhando o julgamento dos quarenta mensaleiros pelo Supremo Tribunal Federal, em que, de maneira inédita em nossa História, todos, sem exceção, foram considerados réus perante a denúncia do procurador-geral da República, Antônio Fernandes de Souza.

O inédito aí está na amplitude desses protagonistas: três ex-ministros, um ex-presidente da Câmara, 13 deputados e ex-deputados, dirigentes de partidos e de bancos, e empresários. Daria até para ver uma luz no fim do túnel , se não fosse pelas expectativas dos prazos anunciados para a finalização desses processos: mínimo de dois anos! Cheguei a ouvir falar em cinco!

Coisa inédita também foi o julgamento realizado publicamente. Para azar dos ministros, pois foram obrigados a descer do pedestal, ou seja, tendo de revelar que são tão mortais quanto nós. Não apenas em suas necessidades fisiológicas, como também no que se refere a fuxicos, como na flagrada troca de mensagens, pelo computador, entre os ministros Ricardo Lewandowski e Carmen Lúcia.

Mas o pior aconteceu no dia seguinte das condenações anunciadas, a partir da afirmação desse mesmo ministro Lewandowski de que o Supremo votou com a faca no pescoço e que o tribunal tendia a “amaciar” para Dirceu. A luz no final do túnel apagou-se de vez! Ué? Pode um juiz afirmar sobre “amaciar”?

Eles não deveriam votar com a razão e não com a emoção? Ao menos, foi o que sempre ouvi. Ah, é! Pois é, acho que vou ter de fazer uma revisão naquele primeiro parágrafo, acima, daquela minha crônica inserindo agora: “… que ministro do STF (na verdade, juiz, de modo geral) nunca amaciava…”

E aí, depois, tem gente que ainda reclama quando ouve falar que este país não é sério…