
O jogador conseguiu conquistar o carinho e respeito dos japoneses
Em 2002, cinco anos depois de ter se naturalizado japonês, o jogador de futebol Wagner Lopes, hoje com 38 anos, encerrava sua carreira como atleta no estádio Hakata no-mori, em Fukuoka. Dez mil pessoas preenchiam as arquibancadas em seu último jogo. A torcida do Avispa Fukuoka levantava cartazes com o número 9 da camisa do jogador e retribuía, com aplausos, a dedicação de 15 anos do atacante ao futebol nipônico.
Foi uma carreira e tanto. Àquela altura, Wagner Lopes era, com 206 gols, o maior artilheiro da liga de futebol profissional japonesa, a J-League; havia representado o Japão em uma copa (a de 1998, na França), sendo o primeiro estrangeiro a jogar na seleção japonesa; e se tornado ídolo das sete torcidas dos times nipônicos pelos quais passou. Antes de conquistar o carinho e respeito dos japoneses, o atacante aprendeu a se adaptar de forma extraordinária ao país em que construiu carreira.
Descendente de italianos e espanhóis, Lopes, fisicamente, não parece nem de longe um nihonjin, mas, além do passaporte, diz ter um coração nipônico. “É legal o fato de que eu e minha família (ao lado, na foto de 1997, com a esposa Cristina e os dois filhos que nasceram no arquipélago, Victor e Igor) absorvemos a cultura de dois países: a disciplina, a determinação e o gambare (esforço) do japonês, por um lado, e a alegria, criatividade e descontração do brasileiro, por outro”, diz.
“O Japão tem muita coisa a ensinar. Se procurar entender a cultura, a história milenar do país, você tirará grandes aprendizados e conseguirá o respeito dos japoneses”, diz. “No Japão, por exemplo, eu aprendi que antes de liderar, você tem de aprender a servir. Tive lições sobre a importância da paciência, de saber esperar sua vez para ouvir e falar.”
Desde 2003, Lopes mora no Brasil e faz palestras motivacionais pelo País. Também é consultor técnico da Nike e mantém um escritório em Tokyo. Através desse trabalho, realiza oficinas de futebol para garotos brasileiros em todo o arquipélago.
Em entrevista exclusiva à Gambare!, o jogador falou sobre sua trajetória no futebol e a experiência de vida no arquipélago. Confira.
Wagner na seleção, saudado pela torcida japonesa
De cabeça raspada no Nagoya Grampus
Atualmente, realizando palestra
A oportunidade
Em 1987, quando jogava no São Paulo, Wagner foi chamado para jogar no Nissan, hoje Yokohama Marinos, de Yokohama
A grande oportunidade que eu tive veio por meio de um companheiro do São Paulo: Oscar Bernardes. Quando ele foi chamado para treinar no Nissan, o técnico perguntou se ele não teria um jovem atacante para indicar. O Oscar me chamou e eu aceitei na hora. Dois anos antes, eu havia lido o livro sobre a vida de Morita-san, ex-presidente da Sony e achei que o Japão seria um ótimo país para poder conhecer. O início de carreira no arquipélago foi bom, porque fui não só para jogar futebol, mas também para aprender. Como ser humano, eu tinha a meta de ter boas lições.
Cidadão japonês
Por que se naturalizou
Em 1998, consegui ser aceito como japonês. Em nenhum momento, me naturalizei para jogar na seleção nipônica. Me naturalizei por amar a forma de vida e a cultura japonesa. Nas eliminatórias da Copa de 1998, o Japão tinha dificuldades em fazer gols e a seleção precisava de um atacante. Fui convocado. Conseguimos a classificação para a Copa no último jogo, com um gol de ouro. Dois dias antes, minha mãe havia falecido. A dor era grande, mas eu usei a dificuldade para ter forças para ajudar a seleção japonesa a conquistar a vaga. Não voltei ao Brasil. Fiquei na Malásia, para o jogo.
No arquipélago
A adaptação ao jeito oriental O futebol nipônico é muito diferente.
No Brasil, ele é cadenciado. No Japão, corre-se o tempo todo. Durante seis meses, não conseguia render. Ficava frustrado por não entender a forma de os jogadores pensarem. Não sabia o que esperavam de mim. Foi um período construtivo, pois cheguei a estudar dez horas por dia não só o idioma, mas a cultura, a forma de pensar dos japoneses. Se uma pessoa, por exemplo, procurar entender a história da fábrica em que trabalha, ela vai ganhar muito com isso. Compreenderá o que aconteceu para a fábrica estar no estágio em que está. Entenderá a maneira de os chefes comandarem. Talvez isso faça com que ela renda mais.
Responsabilidade
Agindo como um samurai
Em 1999, eu fui comprado pelo Nagoya Grampus e passaram-se oito jogos no time sem que fizesse um gol. Eu cheguei ao clube cabeludo e nunca tinha cortado o cabelo careca. No Japão antigo, quando o samurai cometia um erro, ele raspava a cabeça para chamar a responsabilidade para si. Eu fui cortar o cabelo sexta-feira, pois havia lembrado dessa história. Nós jogaríamos no sábado, contra o Awaresi. Com essa ação, quis mostrar para a minha equipe que eles não eram culpados de nada, que só eu era responsável pelas minhas más atuações. No jogo, nós ganhamos por 8 a 0 e eu fiz os primeiros 5 gols. Foi uma alegria muito grande. Nós conseguimos ser campeões da Copa do Imperador e eu fui artilheiro da Copa Nabisco no mesmo ano.
Aceitação
Como conseguiu se adaptar tão bem à sociedade japonesa
Nos 17 anos em que morei no Japão, convivi com muitos brasileiros. Percebi que vários deles não conseguem entender como o japonês pensa, como é o sistema. Mas é mais por falta de se interessar em estudar a cultura. Muitos não conseguem se comunicar e, daí, a dificuldade de adaptação. Alguns brasileiros acham que o Japão é uma continuação do Brasil. A cultura nipônica é milenar, diferente. A distância é enorme. Eu acho que viver no Japão como brasileiro não dá certo. Quem pretende ir ao arquipélago deve aprender o jeito de pensar deles. Para você ser aceito, em qualquer cultura, você tem de aceitar também. Muita coisa do jeito nipônico de pensar eu não concordo, mas aceito. Você aprende estudando. Quando eles percebem que você se preocupou em entender como pensam, isso faz com que te respeitem. Se você não se interessa pelo idioma, se não se esforça um pouco para falar, é também uma forma de dizer que você não respeita a cultura deles. O primeiro passo é tentar aprender japonês. Não precisa ser fluente. Pode ser “mim querer ir”. Mas a partir do momento em que você mostra interesse, já é um passo tremendo para você ser respeitado.
Mudanças
A experiência em sete clubes japoneses diferentes
A melhor forma de aprender é ser peregrino. Como, antigamente, os samurais iam às províncias em busca de ensinamentos, você deve ter a cabeça aberta para conquistar novas amizades, mostrar um pouquinho do que você é em outros lugares. Eu nunca tive medo de trocar de clube, ir para uma nova cidade, enfrentar desafios. Em todos os times pelos quais passei, creio que deixei as portas abertas.

Hoje, Wagner Lopes faz palestras motivacionais, em que conta sua trajetória
Times em que atuou
São Paulo (1985-1987)
Yokohama F. Marinos (1987-1990)
Kashiwa Reysol (1990-1994)
Honda F.C (1995-1996)
Bellmare Hiratsuka (1997-1998)
Nagoya Grampus Eight (1999-2000)
FC Tokyo (2001)
Avispa Fukuoka (2001-2002)
Seleção japonesa (1997-1999)*
*Participou da Copa da França em 98
