
Neusa Emiko Miyata, diretora-executiva do programa Disque-Saúde
No decorrer de pouco mais de 11 anos, foram quase 43 mil telefonemas recebidos de todas as partes do Japão. Ao mesmo tempo em que participa da história da comunidade brasileira no arquipélago, o Disque-Saúde também ajuda a contá-la e a refletir sobre ela. É o que sugere a psicóloga Neusa Emiko Miyata, diretora-executiva do programa de orientação médica gratuita por telefone, ao observar que os problemas de saúde enfrentados pelos brasileiros têm mudado de acordo com o desenvolvimento da própria comunidade.
Convidada a recapitular os 11 anos de existência do Disque-Saúde, Neusa fez esta interessante constatação. “Através da trajetória do Disque-Saúde, analisando os motivos dos telefonemas recebidos, é possível contarmos boa parte da história dos brasileiros no Japão”, explica a psicóloga, que acompanha o programa desde sua criação, em julho de 1996. “Nestes 11 anos, os problemas reclamados ao Disque-Saúde têm mudado de acordo com cada etapa da formação da nossa comunidade.”
Neusa lembra que não quer fazer generalizações, mas acredita que explicar o desenvolvimento da comunidade com base nos problemas constatados pelo Disque-Saúde pode ser útil para levantar reflexões futuras. “Por exemplo, muitos brasileiros estão envelhecendo e, naturalmente, os problemas de saúde tendem a aumentar. Por isso, é essencial que todos paguem algum seguro de saúde em dia”, menciona. Abaixo, ela faz um “diagnóstico social” com base nos quase 43 mil telefonemas recebidos pelo Disque-Saúde nestes 11 anos de serviços prestados à comunidade.
O que é o disque-Saúde
É um serviço gratuito de orientação médica por telefone, em português, disponível para os brasileiros residentes em qualquer localidade do Japão. As informações são prestadas por cinco médicos e uma psicóloga. Criado em julho de 1996 e centralizado pelo Consulado Geral do Brasil em Nagoya, o serviço é custeado com o apoio de empresas brasileiras
Equipe médica
Elza Nakahagi (clínica geral e pediatria)
George Ito (cirurgião)
Helena Yamada (pediatria e psiquiatria infantil)
Neusa Emiko Miyata (psicologia)
Sônia Tsushima (clínica geral e psiquiatria)
Taro Nagai (clínica geral e geriatria)
Telefones do Disque-Saúde:
052-222-1096 e 0120-05-0062
Horário de atendimento: de 2ª a 6ª feira, das 9h às 13h e das 14h às 17h
Mais informações: matérias de orientação e formas de prevenção de doenças no site do Consulado Geral do Brasil em Nagoya (www.consuladonagoya.org)
Apoio: Banco Itaú, Nichiyu International, Brastel e Escola Alegria do Saber
NÚMEROS
Criado em julho de 1996, o Disque-Saúde deve fechar o ano com quase 43 mil ligações recebidas – uma média superior a 3,5 mil atendimentos por ano
DESENVOLVIMENTO DA COMUNIDADE
Neusa Emiko Miyata, diretora-executiva do Disque-Saúde, reflete sobre os 11 anos de existência do programa e as mudanças e transformações passadas pela comunidade brasileira no Japão.
Adaptação difícil
“No início, a maioria dos brasileiros vinha ao Japão sozinha, com um objetivo bem definido, de trabalhar por pouco tempo para economizar dinheiro e logo poder voltar para o Brasil, comprar um terreno, uma casa ou montar um negócio próprio, por exemplo”, comenta Neusa. “Eram pessoas mais determinadas a cumprir objetivos específicos, e que enfrentaram mais dificuldades por terem sido pioneiras.”
Ela lembra que, nessa época, como a infra-estrutura brasileira ainda era bastante precária, as principais queixas que o Disque-Saúde recebia na área de Psicologia eram relacionadas às dificuldades de adaptação no ambiente de trabalho. “Além do choque cultural, havia ainda a barreira de comunicação com os chefes japoneses, a dificuldade de fazer amizades e, é claro, as saudades da família que ficou no Brasil.”
Dentro de casa
Neusa recorda que, no final da década passada, quando muitos membros da primeira geração de dekasseguis já haviam retornado ao Brasil, o perfil dos brasileiros que vêm ao Japão mudou um pouco. “O grupo seguinte era formado por pessoas que viram alguns brasileiros voltarem para lá em boa condição financeira e, por isso, resolveram vir também”, arrisca. “Muitos jovens trancaram a matrícula na faculdade ou adiaram o estudo para vir fazer seu pé-de-meia, mas sem um objetivo tão definido quanto o dos primeiros dekasseguis.”
No “diagnóstico social” de Neusa, os trabalhadores desta nova leva chegaram ao arquipélago com suas famílias, motivo pelo qual o foco dos problemas reclamados ao Disque-Saúde mudou um pouco. “As queixas acerca do ambiente de trabalho continuaram, mas a maioria dos problemas passou para dentro de casa, principalmente entre os casais”, analisa a psicóloga. “Muitos relacionamentos ficaram conturbados devido ao excesso de horas extras e à conseqüente falta de comunicação dentro de casa, o que começou a causar alguns desentendimentos familiares.”
Filhos
Já no início desta década, as consultas ao Disque-Saúde continuaram no ambiente doméstico, mas passaram a envolver crianças. “O grupo seguinte de dekasseguis inclui muitos remanescentes do grupo anterior, que acabaram ficando no Japão por mais tempo que desejavam”, prossegue Neusa. “Alguns já eram casados e outros casaram-se aqui. Mas nesta época muitos começaram a ter filhos no Japão e, então, os problemas se voltaram para as crianças.”
A diretora-executiva do Disque-Saúde relata que, a partir deste momento, a maior incidência de telefonemas voltou-se para questões relacionadas à Ginecologia, Obstetrícia e Pediatria. “Muitas mães eram marinheiras de primeira viagem e, mesmo no Brasil, já teriam muitas dúvidas. No Japão, ficaram ainda mais inseguras e receosas sobre como criar seus filhos”, explica. “Eram dúvidas sobre tudo o que envolve a gravidez e a criação de crianças, como a tabela de vacinação e os procedimentos pediátricos, entre outros assuntos.”
Educação
Estes filhos cresceram e chegaram à idade escolar. “Então, a preocupação das famílias brasileiras passou a ser sobre a melhor forma de educá-los”, continua Neusa Emiko Miyata. Ela lembra que, na área de Psicologia, ouviu muitos pais divididos entre a escola japonesa e a brasileira, ou entre a dúvida sobre qual idioma ensinar aos filhos com prioridade, o português ou o japonês.
“Neste momento, toda a problemática passou a girar em torno das crianças. Alguns brasileiros chegaram a pensar se seria melhor retornar ao Brasil para aproveitar melhor a idade escolar dos filhos”, lembra. “O problema é que as pessoas se faziam essas perguntas sem saber ao certo por quanto tempo ainda pretendiam viver no Japão.”
Depressão
Sobre o atual momento da comunidade brasileira, Neusa se preocupa com o aumento de casos de depressão. Ela conta que o Japão nunca teve tantos casos do tipo e acredita que, depois de mais de 15 anos do fenômeno dekassegui, muitos brasileiros se acostumaram com o estilo de vida nipônico. “Isto faz com que os brasileiros tenham problemas semelhantes aos dos japoneses, e a depressão é um bom exemplo”, diz. “Acho que, se estivessem no Brasil, estas pessoas não teriam tantos problemas de depressão.”
A psicóloga frisa que a causa da depressão não é de todo conhecida, mas pesquisadores indicam que ela tem forte ligação com o sentimento de perda. “A perda de um ente querido, de um namorado, de um objetivo de vida, de uma perspectiva, tudo isso favorece o desenvolvimento da depressão”, explica. “Talvez os brasileiros sintam saudades de familiares e amigos, do Brasil ou de algo que gostariam de ter feito e que agora encaram como alguma perda. A pressão do trabalho, a correria do dia-a-dia e a falta de lazer também favorecem esse baque psicológico.”
Futuro
Ao traçar o paralelo entre os problemas reclamados ao Disque-Saúde e o desenvolvimento da comunidade, Neusa tenta antever possíveis tendências desta trajetória. “Uma coisa é lógica: as pessoas estão envelhecendo e, com isso, é natural que tenham mais problemas de saúde. Por isso, quero frisar aos brasileiros sobre como é importante ter um seguro de saúde, para eventuais necessidades”, adverte. “A saúde é muito mais importante do que o dinheiro e gostaria que as pessoas não vissem o seguro de saúde como um prejuízo financeiro, e sim como um investimento em segurança. Principalmente para quem tem filhos.”
“Há pessoas desleixadas com a saúde, que ficam adiando a necessidade de um tratamento médico para quando retornarem ao Brasil. O problema é que essas pessoas acabam ficando no Japão e um pequeno problema de saúde pode acabar se tornando algo mais preocupante, ou mesmo irreversível”, menciona Neusa. “Mesmo que morar no Japão seja algo provisório para muitos brasileiros, peço que eles nunca deixem de cuidar da saúde. O Disque-Saúde tem cumprido sua missão nestes 11 anos, mas é preciso que cada brasileiro também faça sua parte para que todos possamos viver bem”, finaliza.
Publicado originalmente no site do jornal Tudo Bem em 19/12/2007.

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