Silvio Sano
escritor, autor de Sonhos Que De Cá Segui.

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Por esses dias, li algumas matérias na mídia nikkei, de lá e de cá, sobre o momento atual pelo qual passam alguns conterrâneos dekasseguis no Japão. Até aquela referência aos brasileiros vivendo em situações precárias, como “debaixo da ponte”, chamados de “sem teto” etc, foram novamente relembrados.

Em princípio, isso tudo poderia parecer exagero ou aquele tipo de… “coisa da mídia”. Mas, não. Tratou-se apenas de uma retomada de reflexão a respeito desse assunto, trabalho, razão de nossas vindas, e que interessa a todos. Até porque deram também um panorama geral e até dicas aos brasileiros no Japão. Como por exemplo: que o trabalhador não tem obrigação de ficar em um emprego caso o trabalho não seja o que buscava. Mas, também, não é assim, abandoná-lo, simplesmente. Eu, hein!

E, atrelada a essa atitude, citam outra, de fundamental importância, ainda mais aos japoneses, que é o de sempre “dar satisfação”. Por isso, não é assim. Até porque, como diz um ditado brasileiro, “ninguém pode afirmar que dessa água jamais beberei”.

Mas, o que me chamou a atenção foi o que estava por trás desse contexto todo, somado ao fato de, por coincidência, encontrar um amigo que trabalha em uma dessas agências de emprego, que me contou sobre as dificuldades e facilidades para se encontrar colocação aos candidatos a emprego que o procuram.

Uma das facilidades, o óbvio, era o domínio da língua japonesa. Aqui faço o vínculo com o que me chamou a atenção: a abordagem sobre um desempregado que estava há mais de uma dezena de anos no Japão… e ainda não sabia falar japonês!! Exemplos como ele, na verdade, existem muitos no Japão. Ao mesmo tempo, vem-me à lembrança o caso de um jovem, não-nikkei, no Brasil, que, por adorar “mangás”, se esmerou em aprender a língua japonesa e o conseguiu, sendo premiado, no fim, com uma viagem ao Japão.

Ou seja, em país estranho, o mínimo que um trabalhador deve fazer é se esforçar para dominar o meio de comunicação de quem o emprega ou com quem trabalha: a sua língua. Até para a própria defesa. Sem contar que se trata de um instrumento oferecido, graciosamente, no dia-a-dia, a quem quiser fazer bom uso dele. O “complemento”, para se dar bem em qualquer emprego, vem de cada um, e as matérias também o enfatizavam: informar a experiência de trabalho (inclusive do Brasil) e, principalmente, demonstrar vontade de trabalhar.

Se muitos, hoje, lamentam não ter aproveitado as oportunidades no Brasil quando ainda viviam com as odiitchans e obaatchans, ou quando freqüentaram nihongakkou, sem o empenho necessário, têm, agora, a chance de reverter essa perda. Caso contrário, daqui a dez anos, poderão voltar a lamentar o fato de estarem desempregados apenas por essa razão.