Silvio Sano
escritor, autor de Sonhos Que De Cá Segui.

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Para a maioria dos articulistas, diferente do último artigo do ano, que costuma abordar temas ligados ao ano que passou e planos para o novo, o primeiro do ano versa, de modo geral, sobre estatísticas de mortos e feridos, vitimados tanto nas rodovias, quanto nas cidades, em conseqüência da violência urbana causada pelo clima de festas do momento. As discussões: abusos com o álcool, desigualdades sociais, caos aéreo, etc.

E nessa passagem de ano, para contribuir, aconteceu o assassinato de Benazir Bhuto, candidata nas eleições à presidência do Paquistão, que deflagrou a violência naquele país, provocando centenas de mortes. Logo a seguir, aconteceu o mesmo no Quênia, dessa vez, pós-anúncio do resultado das eleições com acusações de fraudes somadas a razões étnicas.

Isso tudo não pretendo fazer aqui, deixando a incumbência para a grande mídia. Não se trata de querer se afastar dos problemas que nos cercam e nos afligem, mas por uma razão muito vinculada a nós (gostem uns, não gostem outros), que é o centenário da imigração japonesa no Brasil. Nem tanto pelo fato de se completar um século desde a ida dos primeiros imigrantes para aquele país, até porque já faz mais de 100 anos que os primeiros aportaram lá. Isso, aliás, daria outra discussão igual àquela de que não foi Colombo que descobriu o continente americano, mas os vikings. Isso, porém, é outra história.

A verdade é que, oficialmente, faremos (?), sim, cem anos de imigração e isso nos leva à discussão sobre o meu, o seu, o nosso, o “deles” (principalmente o “deles”) papel no Brasil, enquanto cidadão brasileiro, cidadão imigrante japonês, não importa, porque são, todos, cidadãos moradores dependentes, mas também contribuintes do País.

Qual seria esse papel, de cada um, independentemente da nacionalidade, enquanto cidadão morador de um país? Não seria o de dar e receber? De buscar garantir essa reciprocidade de maneira igualitária, democrática? E isso não deveria ocorrer também na relação dos dekasseguis com o Japão? Está ocorrendo? Tanto lá como cá? E por que não? Qual parte não está correspondendo? Se não é possível de modo coletivo (falta de engajamento) como contribuir para uma boa relação de modo individual?

Cada um, na verdade, deve descobrir a sua forma. Em um país como o Brasil, multirracial, de mais de 60 nacionalidades diferentes, imagino que uma das contribuições deva estar vinculada ao intercâmbio cultural, a começar pelo conhecimento das próprias raízes. No Japão, enquanto estrangeiro, é preciso justificar o tempo todo a vinda, a começar pela aceitação de seus hábitos e costumes… o que é diferente de submeter-se.