
Nelson Tanuma
Consultor, palestrante e escritor, especialista em desenvolvimento do potencial humano. Foi dekassegui em 1993.
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Aos 19 anos, li um exemplar da Revista “Seleções do Reader Digest”. No rodapé de uma das páginas, encontrei um texto extraído do livro O primeiro cruzeiro de Racundra”s. Ele continha o pensamento do falecido escritor de contos infanto-juvenis Arthur Ransome, que marcou, de forma indelével, a maneira como percebo o que chamam de “espírito da juventude”. O texto dizia o seguinte:
“As casas não são mais que barcos mal construídos, tão solidamente implantados no chão que não se pode sequer pensar em movê-las. Não há dúvida de que são coisas inferiores, que pertencem mais ao reino vegetal que ao animal: enraizadas e estáticas, impassíveis à transição. A decisão de construir uma casa vem daquele desejo mórbido de uma pessoa que se contenta em ter, a partir daí, um só ancoradouro. A decisão de construir um barco, porém, é aquele desejo da juventude, que se recusa a aceitar um lugar de repouso final”.
Naquele instante, tive um insight sobre o significado da alma jovem, que independe da idade cronológica. Voltei no tempo e revivi, com todas as cores, o sentimento da criança destemida que fui um dia. Vi-me invadido por uma vontade de buscar novos horizontes, como a criança que, após abandonar a segurança do ventre materno, engatinha e aprende a andar após muitos tombos.
Então, fiz uma pergunta crucial: será que essa criança que fui um dia teria orgulho de mim hoje? Tenho me empenhado para que a resposta seja sempre positiva.
Hoje, no meu escritório de trabalho, sob o vidro transparente que cobre a minha mesa, entre vários objetos e documentos; tenho duas coisas preciosas que guardo com muito carinho. Uma delas é uma meia folha de papel sulfite onde está digitado o pensamento que denominei “juventude”. A outra é uma foto minha com seis meses. Lá estou eu, usando macacão e touca, “com um ar inocente de quem acreditava que o mundo resumia-se a pessoas carinhosas como meu pai e minha mãe”.
O estranho está no fato de eu ser proprietário de uma imobiliária. Clientes lêem o texto e ficam com a fisionomia perplexa, por não entenderem como um vendedor de imóveis pode considerar casa como “coisa inferior”. Sempre desejei que me perguntassem o porquê da frase. Nesse caso, teria duas teorias:
a) Eles entenderam o sentido simbólico do “espírito de juventude”;
b) Concluíram que sou um “sujeito frustrado” e fixei o texto por não gostar do trabalho que faço.
A única pergunta que me fizeram após lerem o pensamento foi: “Hoje está fácil ou difícil vender imóveis?” Minha resposta: “Está mais ou menos, mas a gente vai levando.” Na seqüência, o comentário: “É. A concorrência no mercado imobiliário está “brava” né?” Então não falo sobre metáforas de barcos, oceanos, sonhos de viagens e juventude, sobre coisas que considero essenciais, embora invisíveis aos olhos. Volto ao computador e continuo a elaborar meus contratos.
Seria maravilhoso se pudéssemos “congelar” as imagens como numa tela de vídeo: os bons momentos que passamos com as pessoas que amamos. Seriam obras de arte retratando as paixões pela vida. Deveriam ser da maneira como escreveu Shakespeare: “Vem, senta aqui do meu lado e deixa o mundo girar. Jamais seremos tão jovens”.
Meu desejo é que esse “espírito jovem” não me abandone; que esteja com todos os que buscam encontrar o “paraíso perdido da bem-aventurança e da eterna juventude”. Esse lugar existe e está dentro de cada um. O futuro da humanidade está nas mãos de jovens sonhadores, idealistas e pró-ativos, independentemente da idade cronológica.

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