Nelson Tanuma
Consultor, palestrante e escritor, especialista em desenvolvimento do potencial humano. Foi dekassegui em 1993.

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É importante que desenvolvamos a capacidade de compreender e perdoar as pessoas.

As crianças tendem a ver os pais como super-heróis, criando expectativas que, na maioria das vezes, eles não são capazes de atender, e na adolescência e juventude essa frustração costuma se manifestar em forma de rebeldia. Durante longos anos, guardei mágoa em relação ao meu pai, que faleceu em 1982, principalmente pelo fato de ele ter sido alcoólatra por longos anos.
Embora ele não tivesse sido um homem violento, eu sempre o recriminava porque não conseguia ser o pai-herói que eu idealizava. Revendo meus conceitos, e, considerando que ele veio ao Brasil com dezenove anos para trabalhar em serviço braçal, que o casamento dele foi arranjado (omiai), e que ambos, meu pai e minha mãe, tiveram de trabalhar duro na lavoura durante quase toda vida para criar e educar oito filhos sem terem tido oportunidade de estudar, penso que ele buscou a fuga para seus dissabores e frustrações na bebida alcoólica.

Minha mãe me disse que, na época em que vieram, havia propaganda do governo do Japão para reduzir a população, que sofria por falta de alimentos, em face do fim Segunda Guerra Mundial. Era divulgado que todos os imigrantes que viessem trabalhar no Brasil enriqueceriam no prazo máximo de cinco anos; assim, convenciam e colocavam os imigrantes no navio só com a passagem de ida. Até hoje, nunca ouvi falar que algum imigrante japonês tenha enriquecido e retornado ao Japão em cinco anos. Acredito que o choque cultural tenha sido um trauma para ele, e considerando que os traumas deixam cicatrizes na alma, acho que ele teve dificuldades para conviver com essas cicatrizes. Reconheço que meu pai contribuiu de forma significativa para nossa criação e educação, e que nunca o tratei tão bem quanto ele merecia, e que somente após a sua morte, percebi que minhas expectativas sempre foram maiores dos que ele podia atender.

Hoje, após fazer muito exercício mental de pedir perdão e perdoar; as lembranças que procuro guardar dele referem-se ao tempo em que morávamos em um bairro da capital paulista chamado Itaim Paulista; eu com 4 anos, e ele me levando carregado no seu ombro até um bar próximo, para me comprar uma garrafa de guaraná. Foram momentos singelos e muito felizes. Agora compreendo melhor o significado da frase: “Errar é humano e perdoar é divino”.

Recordo-me de que, alguns anos antes de seu falecimento, meu pai, que já não bebia mais, mesmo adoentado, passou a dirigir-se a casa de várias pessoas doentes da redondeza para fazer orações de cura, lendo um sutra escrito em japonês. Naquela época, eu não entendia bem o porquê daquilo, mas sei que ele se tornou uma espécie de curandeiro da região e muitas pessoas vinham procurá-lo trazendo fotografias de pessoas doentes, pediam orações, e muitos diziam-se curados. Na época, eu achava tudo aquilo muito estranho e incompreensível.

Acredito que suas peregrinações e orações, já doente e no apagar das luzes do teatro da vida, foi uma espécie de tentativa de resgate de algo sagrado, de algum ideal nunca exteriorizado. Acredito que tenha sido uma tentativa desesperada de encontrar algum elo perdido entre o que ele viveu e tudo quanto ele, no passado, havia sonhado e idealizado. Entretanto, são coisas que ele nunca me disse, e nunca tive a coragem de lhe perguntar. Sinto que julguei-o de forma parcial e equivocada, por isso peço perdão novamente ao meu pai pela tristeza que causei.