Roberto Shinyashiki
Psiquiatra, palestrante e autor de 13 títulos, entre eles Os Segredos dos Campeões, Tudo ou Nada e Heróis de Verdade.

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Um dia você acorda e percebe que muitas coisas que achava normal começam a deixá-lo chateado, como escutar reclamações dos seus colegas de empresa porque não fez o combinado, ou tomar uma dura do chefe porque seu trabalho está ruim.

Esperar pelo namorado que não dá satisfação pelo atraso começa a incomodar demais. Você liga para sua amiga, convida-a para sair, e ela diz que não pode, pois foi promovida no emprego e está ocupada estudando para o novo cargo. Seu amigo de infância liga e convida-o para tomar um chope porque quer comemorar a compra do apartamento. Você se sente inferiorizado.

É, parece que alguma coisa não está indo muito bem! Você fica sem graça ao ver seus amigos falando sobre vitórias, por não ter suas histórias para contar. Você ainda tenta justificar para si mesmo que é só uma questão de tempo para as vitórias acontecerem, mas começa a ouvir a voz da consciência lhe dizendo que alguma coisa está errada.

O mais forte é a sensação de que você nasceu para uma felicidade que ainda não encontrou. É a impressão de que existe algo melhor à sua espera, que precisa ser alcançado com urgência. Sente que você está ficando para trás e desperdiçando as oportunidades da vida. Ao mesmo tempo em que o desconforto aumenta, a voz do medo começa a martelar a consciência: “Para que largar minhas coisas?”, “Para que me matar no trabalho se eles não valorizam?”, “Quando for promovido, mostrarei minha competência”, “Para que me preocupar com minha namorada se tem tantas querendo sair comigo?”

A cabeça escuta duas vozes. Uma diz para avançar e pagar o preço: “Vá em frente!”. A outra diz: “Você não precisa disso! Relaxe que ainda não chegou a hora. Deixe as coisas como estão!”. Essas vozes vão se repetindo em nossa cabeça, exatamente como aquela cena em que a gente perde um pênalti no fim do campeonato da escola. A gente fecha os olhos e a cena aparece. Liga a TV e a cena aparece. Isso gera uma angústia tão grande que as pessoas que não têm coragem de avançar de verdade na vida começam a tentar calar essas vozes. E fazem isso, muitas vezes, apelando ao álcool, ao exagero na comida e até mesmo às drogas.

Tudo isso são coisas que só calam as vozes por alguns momentos. No dia seguinte, elas voltam com mais cobranças: “Por que você bebeu desse jeito? Não vê que está gordo de dar dó? Como você pensa que vai sair dessa?” Você percebe que nada acalma sua ansiedade. Nada disso é solução. O único caminho é escutar a voz do coração e seguir em frente.
Toda mudança importante é precedida por uma situação de crise. As coisas que você valorizava já não o satisfazem, mas você hesita em se desfazer delas com medo de sentir falta. Isso é natural. Agora você quer outras coisas. Quer vencer na vida, ser importante, ser feliz. Seus anseios aumentaram, mas ao mesmo tempo as chances de conseguir um lugar ao sol são restritas, a competição é intensa e os desafios, imensos.

Há momentos repletos de contradições e dúvidas. Essa situação lembra certos filmes de aventura, como Indiana Jones e O Senhor dos Anéis, nos quais o protagonista vive uma rotina vazia até receber um chamado que o faz arrumar as malas e partir com uma missão. Então, o protagonista é submetido a uma série de provações, que o mitólogo Joseph Campbell chama de jornada do herói.

No final, para quem batalha, o prêmio é uma grande descoberta pessoal, com a elevação de sua vida para um patamar de maior satisfação e realização. Se você está recebendo um chamado da sua consciência para ser tudo o que tem potencial de ser, a única solução é fazer as malas e embarcar na aventura da sua vida.