Em geral, quanto mais tempo os brasileiros ficam no Japão, mais adquirem conhecimento sobre os diversos tipos de trabalho disponíveis no mercado. As ofertas estão centralizadas em três setores: automotivo, eletrônico e alimentício. Mas qual tipo de serviço é o mais adequado? Isso depende do objetivo traçado.

Quem pensa em retornar logo ao Brasil pode optar por um serviço com muitas horas extras, o que permite juntar dinheiro em pouco tempo. Nesse caso, o setor de autopeças é o mais indicado – apesar de a produção ter caído um pouco. Quem está mais tranqüilo em relação à volta, ou quer se fixar no Japão, por sua vez, deve escolher algo mais estável e que lhe ofereça garantias para o futuro – contratação direta e aposentadoria, por exemplo.

Mesmo hoje, a primeira pergunta que o candidato a uma vaga faz quando liga para uma empreiteira é, geralmente, quanto se paga por hora trabalhada, ou se é possível fazer muitas horas extras. O tipo de serviço acaba ficando em segundo plano. Isso mostra que os brasileiros ainda estão preocupados em ganhar bem. Na maioria dos casos, ganham bem as pessoas que mantiveram os salários do início do fenômeno dekassegui ou optaram por trabalhar à noite – o que implica um adicional de 25%. Os tipos de trabalho que oferecem melhores salários são ainda os mais pesados e sujos, além dos que, de alguma forma, podem trazer danos à saúde. A solda é um exemplo. O trabalhador recebe até 1,5 mil por hora, mas há risco de problemas nos olhos ou no sistema respiratório se não forem tomadas medidas de segurança.

Saiba, a seguir, o que é preciso levar em consideração para escolher o tipo de serviço ideal ao seu perfil. Conheça, ainda, as vantagens e desvantagens de cada setor de trabalho.

Vantagens e desvantagens de cada setorSETOR DE AUTOPEÇAS
Vantagens
- Estabilidade, mas desde que o setor não entre em crise. A conduta do trabalhador também conta bastante.
- Horas extras freqüentes
- Salário acima da média (em relação ao setor de eletrônicos), principalmente para homens
Desvantagens
- Trabalho pesado (montagem de peças grandes) e corrido (linha de produção)
- Revezamento de turno ou horário somente à noite
- Ambiente sujo

Salário: mil ienes (mulheres) e 1,3 mil ienes (homens)
Horas extras: de 2 a 3 por dia
Requisitos dos candidatos: idade até 35 ou 40 anos e compreensão do idioma japonês (o nível exigido pode variar de acordo com a
fábrica e o tipo de serviço)
Perfil: o setor absorve homens, mulheres e casais

SETOR DE ALIMENTOS
Vantagens
- Nos bentoyas, a produção de uma refeição pronta funciona de forma seqüenciada. Cada funcionário tem papel determinado, desde pesar o arroz até colocar de enfeite um ramo de salsinha sobre a mistura, por isso não é muito estressante
- O setor quase não costuma apresentar oscilações por se tratar de um mercado estável, já que o consumo é freqüente
Desvantagens
- O salário nem sempre é melhor que o setor de eletrônicos ou de autopeças
- O número de horas extras costuma ser baixo

Salário: 900 a mil ienes (mulheres) e 1,2 mil ienes (homens)
Horas extras: de 1 a 2 por dia
Requisitos dos candidatos: idade até 35 ou 40 anos e compreensão do idioma japonês (o nível exigido pode variar de acordo com a fábrica e o tipo de serviço)
Perfil: contrata mais casais

SETOR DE ELETRÔNICOS
Vantagens
- As fábricas que não dependem de lançamentos de produtos (chips e lentes de câmeras, por exemplo) garantem estabilidade
- Os serviços temporários costumam ter muitas horas extras
Desvantagens
- As vagas no setor de eletrônicos costumam ser mais temporárias em relação a outros tipos de serviço, principalmente em fábricas de telefones celulares
- Quando a produção do modelo acaba, normalmente os funcionários menos experientes são cortados, mas nem sempre é assim. Uma pessoa que tem pouco tempo de casa, mas que trabalha bem, pode se tornar fixa, ao contrário de outra com mais tempo, mas que não se esforça. E isso nem sempre depende do tipo de trabalho

Salário: 900 a mil ienes (mulheres) e 1,1 a 1,2 mil ienes (homens)
Horas extras: de 2 a 3 por dia
Requisitos dos candidatos: idade até 35 ou 40 anos e compreensão do idioma japonês (o nível exigido pode variar de acordo com a fábrica e o tipo de serviço)
Perfil: o setor de eletrônicos oferece mais vagas para as mulheres

SOLDA
Vantagens
- Estabilidade e bom salário
Desvantagens
- Serviço insalubre e ambiente poluído. O funcionário é obrigado a usar equipamentos de segurança, como máscara, óculos de proteção, luvas e avental, já que o foco de curto pode afetar a visão. As faíscas podem causar queimaduras e a fumaça levar a uma doença pulmonar chamada jimpai (tosse, suor, dor de cabeça, palpitação e outros sintomas), causada pelo pó de ferro

Salário: 1,5 mil ienes (geralmente só homens)
Horas extras: de 1 a 2 por dia
Requisitos dos candidatos: experiência anterior, idade até 35 ou 40 anos e compreensão do idioma japonês (o nível exigido pode variar de acordo com a fábrica e o tipo de serviço)
Perfil: somente homens qualificados (com experiência ou com curso concluído) são contratados

O que levar em consideraçãoIdade
Depois dos 40 anos, fica mais difícil arrumar um trabalho no Japão, principalmente no setor de produção industrial. Basta ver os anúncios de emprego. Algumas ofertas ainda toleram candidatos com até 45 anos, já que às vezes faltam pessoas jovens para ocupar as vagas. Mas a maioria das fábricas dá preferência para trabalhadores de até 35 anos, em função da resistência física, agilidade e boa visão (para os serviços de inspeção de peças, por exemplo). Quem chegou em 1990 com 25 anos, hoje já passou dos 40, ou seja, no limite da idade imposto pelas fábricas. Porém, alguns setores de trabalho também contratam funcionários acima de 45 anos, como é o caso da alimentação, construção civil, demolição de casas e reciclagem de materiais de construção.

Estabilidade
A busca por melhores salários e por um bom ambiente de trabalho têm sido os principais motivos que justificam o alto índice de rotatividade entre os brasileiros nas fábricas. Mas, em época de crise, o melhor mesmo é garantir estabilidade e ganhar confiança e respeito dos superiores, adquiridos com o decorrer dos anos. Por isso, o ideal é se manter o maior tempo possível na mesma empresa. Para permanecer em um emprego, o funcionário precisa saber conviver com os japoneses e mostrar interesse no trabalho. A maior parte das promoções está nas fábricas de autopeças, por causa da estabilidade que o setor oferece. Brasileiros que trabalham há bastante tempo em uma mesma fábrica podem ter a função de líder de linha ou de uma seção, ganhando uma bonificação. É claro que para se chegar a líder é preciso mais do que tempo de serviço. A fluência no idioma japonês é necessária pelo contato freqüente com os chefes. Isso ajuda também na função exercida, já que o funcionário pode ser colocado em uma seção com trabalho menos braçal e mais burocrático.

Currículo
De forma geral, para conseguir um bom salário é preciso ter alguma especialização, além de conhecimento básico da língua japonesa. Não basta ter apenas força de vontade. Um bom currículo é fundamental, e os candidatos preferidos são aqueles que não ficam mudando de emprego toda hora e, se mudam por algum motivo, saem da empresa sem brigar.
Com um pouco de esforço vale a pena fazer alguns cursos que podem ajudar na hora de procurar um emprego, já que o conhecimento do idioma japonês tem
sido o principal requisito das fábricas.

Cursos
Saber pilotar uma empilhadeira, por exemplo, pode render um serviço mais leve e de maior responsabilidade. O Ministério do Trabalho exige uma habilitação para operar esse tipo de veículo, mas já existem empresas voltadas especialmente para brasileiros que dão assistência para obter a licença. Quando for procurar um emprego, essa habilitação conta bastante, principalmente no setor de autopeças, onde as cargas são pesadas. As fábricas têm evitado contratar funcionários específicos nesse setor por ser oneroso. Nesse caso, o brasileiro habilitado tem mais chances porque poderia pilotar o veículo sempre que houvesse necessidade. Também existem cursos de três tipos de solda: elétrica, CO2 (Mig) e Tig (inox e alumínio).

Benefícios
O valor pago por hora trabalhada, a quantidade de horas extras e o tipo de serviço sempre foram fatores fundamentais na hora de escolher um emprego. Mas como as opções costumam ser parecidas, algumas empreiteiras buscam algum diferencial para atrair pessoas. Os benefícios costumam variar em cada empreiteira, e há algumas que oferecem até prêmio de admissão ou de apresentação.