RESTAURANTE ITALIANO A COMANDO DE NIKKEI “INGLÊS”
“Arô, buona sera (alô, boa noite)”. Este foi o título para a apresentação da história do restaurante de Roger Kayasima: Íris Massas, em Mogi das Cruzes. A frase foi tirado de um comercial de televisão de um guia de culinária italiano. Nele, o cliente telefona para uma cantina e é atendido pela proprietária japonesa, que oferece pratos como talharim e espaguete, e pergunta no final: “Vai pedir ou vai ficar enrolando?”
De italiano, a família Kayasima também não tinha nada – a não ser o “sangue verde palmeirense” do irmão e sócio William. Num belo dia, porém, “a oportunidade bateu à porta”. Uma cliente da loja de produtos importados da mãe ofereceu a Roger uma rotisserie e, assim, o “ex-dekassegui com nome de origem inglesa” passou a fabricar e vender massas italianas. “Em São Paulo, muitos baianos e cearenses trabalham em restaurantes japoneses. Eles também são dekasseguis. Isso é prova de que temos muitas competências e fruto do mundo globalizado”, coloca.
O primeiro passo foi desenvolver o perfil de empreendedor. Ao sair da “zona de conforto”, deixou o orgulho e a timidez de lado para buscar capacitação por meio de cursos do Sebrae. Além disso, o apoio da família e a rede de contatos são importantes para superar as incertezas, segundo ele. “Jovem, solteiro, aventureiro e com muitos amigos”, partiu para o arquipélago com o objetivo inicial de comprar um carro e dar o sinal para a compra de um apartamento. Quatro anos mais tarde, voltou ao País com o dinheiro e a seleção foi tetracampeã na Itália. Hoje, considera-se uma pessoas feliz, apesar de ter se desviado de sua meta inicial. “Grazie tanto (muito obrigado)!”, agradece na conclusão de sua exposição.

Ex-dekasseguis que conquistaram o sonho de ter o seu próprio empreendimento no Brasil falaram de suas experiências pessoais no IV Congresso sobre o Movimento Dekassegui, realizado no Centro de Convenções Imigrantes, em São Paulo, de 17 a 20 de julho.

Organizado pelo Sebrae (Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas), o evento teve como objetivo debater sobre empreendimentos e empregos aos brasileiros dekasseguis que voltaram do Japão.

Entre palestras, fóruns e relatos de empreendedores bem-sucedidos, foram abordados mais de dez temas relacionados aos interesses dos dekasseguis como o atual mercado de trabalho no Japão, o Movimento Dekassegui e o emprego no Brasil. Sobre este tema, o palestrante Marcos Haniu, consultor da empresa de colocação profissional Authent Executive e do Grupo Nikkei, ressaltou que, para a reinclusão no mercado de trabalho brasileiro, o dekassegui deve entender o contexto do País para se orientar na busca de seus objetivos

Empreendimento - Para a palestrante e empresária Valéria Nakamura, 36 anos, o principal problema do dekassegui é a postura ao encarar a viagem ao arquipélago. “A própria imigração não é vista como um empreedimento. Ele chega ao Brasil com uma solução caso perca o dinheiro: voltar para o Japão. Isso mina a autoconfiança.”
Além disso, o nikkei deve deixar de lado outras características que podem prejudicá-lo na identificação das oportunidades. “O descendente tem orgulho e uma preocupação com a imagem perante os outros. É altamente exigente e crítico consigo mesmo, e não comemora suas realizações.”

Com sete anos de experiência em grandes empresas, ela coloca que o nikkei deve “pensar com independência para fazer escolhas conscientes”.

Ausência - A presença do público dekassegui, porém, foi pequena, ao contrário do ocorrido na três edições anteriores – em Maringá (Paraná), Campo Grande (Mato Grosso do Sul) e Belém (Pará). O coordenador nacional do programa do Sebrae, Silmar Pereira Rodrigues, lamentou a fato. “O impacto seria muito maior se a comunidade comparecesse de forma maciça”, colocou.

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Publicado originalmente no site do jornal Tudo Bem em 25/07/2008.