
No início do Movimento Dekassegui, os brasileiros buscavam realizar seus sonhos no Brasil através do trabalho nas fábricas japonesas
A cada dia, a palavra dekassegui vai fazendo menos sentido na comunidade brasileira. O termo é formado pelos kanjis “deru”, cujo significado é sair, e “kassegu”, que significa trabalhar, ganhar dinheiro. Em uma tradução aproximada, seria algo como sair de casa para trabalhar e ganhar dinheiro. A palavra era empregada para designar japoneses que saíam de suas províncias natais (geralmente no norte do país) e iam para as cidades grandes em busca de trabalho temporário. Hoje é utilizada também para designar trabalhadores estrangeiros no Japão, em especial empregados de fábrica, caso da maioria dos brasileiros residentes no país.
Mas esse quadro está mudando. Vinte anos depois do início da ida dos primeiros brasileiros ao Japão, o destino não é mais somente as fábricas, nem o idioma só o português. Uma geração de brasileiros – que mais parecem japoneses à primeira vista – está descobrindo novas oportunidades no arquipélago. E o que seria uma viagem temporária para juntar dinheiro em outro país, está se tornando de caráter permanente.
Essa história não é novidade entre os nipo-descendentes, afinal, quando seus avós e bisavós vieram ao Brasil, também pretendiam trabalhar nas lavouras de café por três ou quatro anos e depois retornar ao Japão, de preferência com bastante dinheiro. O resto dessa trajetória todos sabem: os japoneses se integraram ao Brasil e seus descendentes prosperaram, aliando a perseverança japonesa com a criatividade brasileira.
Também no arquipélago, os brasileiros que estão se integrando somam, conscientemente ou não, as qualidades dos dois povos. Com esforço e dedicação se empenham em aprender mais sobre a cultura e o modo de vida japonês. E estudam o idioma, que é a porta de entrada para esse Japão competitivo e diversificado.
A comunidade brasileira, constata-se, já não é mais a mesma dos primeiros dekasseguis. Em dezembro de 1990, eram 56.429 brasileiros registrados no Departamento de Imigração do Japão, segundo dados do Ciate (Centro de Informação e Apoio ao Trabalhador no Exterior). Hoje, os descendentes de japoneses vindos do Brasil totalizam uma comunidade de 316.967 pessoas no arquipélago, segundo dados do Ministério da Justiça do Japão de 2007. Nada menos que a terceira comunidade estrangeira do arquipélago, atrás apenas de chineses e coreanos.
Os trabalhos caracterizados pelos Ks - kitsui (pesado), kitanai (sujo) e kiken (perigoso) - ainda são as maiores fontes de emprego dos brasileiros mas, com o crescimento da comunidade, houve uma expansão admirável no comércio e serviços, tais como lojas de produtos brasileiros, restaurantes, escolas de ensino fundamental e médio, salões de beleza, shopping centers e outros.
Em algumas cidades, como Hamamatsu, Oizumi e Toyohashi, a gama de serviços oferecidos em português é tão grande que não é preciso falar japonês para comprar alimentos, roupas ou um computador. Escolas, cursos e até faculdades têm aulas em nosso idioma. A infra-estrutura para brasileiros é cada vez mais abrangente, o que torna a adaptação de um recém-chegado muito mais fácil.
Uma vez, adaptado, porém, o brasileiro sente que é preciso avançar mais. É necessário estar integrado ao país. Esse é o novo desafio da comunidade brasileira. Evidências da mudança de perfil dos brasileiros que vivem no Japão estão por toda parte, como o aumento de pedidos de vistos permanentes e o crescente número de famílias que adquirem a casa própria no arquipélago.
Os sonhos de estudos, negócios e imóveis que um dia seriam realizados no Brasil estão mudando de endereço, e sendo concretizados aqui, do outro lado do mundo.Os sonhos de estudos, negócios e imóveis que um dia seriam realizados no Brasil estão mudando de endereço, e sendo concretizados aqui, do outro lado do mundo.
Cronologia do movimento dekassegui
1985 - Início da migração de nipo-brasileiros ao Japão. Japoneses que moram no Brasil e nisseis com dupla nacionalidade (brasileira e a japonesa) começam a ser recrutados para trabalhar nas empresas japonesas. O Japão cresce economicamente e tem falta de mão-de-obra
1987 - Nos jornais da colônia japonesa no Brasil (São Paulo Shimbun, Paulista Shimbun e Diário Nippak), multiplicam-se os anúncios
de recrutamento para trabalho no Japão
1990 - O Plano Collor confisca a poupança dos brasileiros, milhares de empresas pedem falência e o desemprego é crescente. No Japão, a lei de imigração sofre mudanças e possibilita a entrada de descendentes de japoneses (nisseis e sanseis) com visto de longa permanência. Os casados com cônjuge nikkei também podem obter o visto
1991 - Aumenta o número de nikkeis brasileiros que imigram para o Japão. Em dezembro de 1991, eles somam 119.333 pessoas
1992 - Os salários nas empresas japonesas chegam a 500 mil ienes, o que atrai cada vez mais brasileiros. A medida que a comunidade cresce, surgem serviços específicos, como lojas de produtos. Em 1992, 147.803 brasileiros estão registrados pela imigração
1993 - Cresce o número de lojas, restaurantes, açougues, locadoras de vídeo e outros estabelecimentos de produtos brasileiros. Em 31 de janeiro de 1993 era publicado o número zero do Tudo Bem. Sob o nome Weekly Tudo Bem, o periódico semanal continha 24 páginas e custava 300 ienes.
1994 - No Brasil, o Plano Real é lançado em mais uma tentativa de conter a inflação. Com o plano ocorre a paridade entre o dólar e o real. Com isso, a remessa de ienes ao Brasil sofre desvalorização. No Japão, o número de brasileiros aumenta para 159.619
1995 - O Japão sofre um de seus piores terremotos da história, na região de Hanshin. O terremoto de Kobe faz mais de cerca de 5 mil vítimas, entre elas oito brasileiros dekasseguis. Em uma cobertura inédita na imprensa brasileira no Japão, o Jornal Tudo Bem é o único a entrar na cidade devastada. O jornal faz contato com os brasileiros sobreviventes e passa a publicar seus nomes em listas e repassa os nomes aos jornal Estado de S. Paulo
1996 - O número de brasileiros no Japão chega a 201.795. Multiplicam-se as lojas de produtos brasileiros. O Jornal Tudo Bem fortalece sua cobertura de assuntos da comunidade.
É lançado o encarte Sucesso, com 24 páginas contendo oportunidades para os brasileiros
1997 - Baixa taxa de crescimento econômico do Japão leva à crise nas fábricas. Em 1997 e 1998, a comunidade brasileira no Japão diminui. Se em 1997 havia 233.254 brasileiros residentes, em 1998, esse número cai para 222.217
1998 - Apesar dos problemas econômicos do Japão, brasileiros usam a criatividade para driblar a crise, como a venda de salgadinhos e artesanato. O número de crianças brasileiras que nascem o Japão causa espanto: são 10 brasileirinhos por dia. De janeiro a junho de 1998 foram emitidos 1.784 registros de recém-nascidos no Consulado do Brasil em Tokyo, um aumento anual de 20% em relação a 1997.
1999 - Lei trabalhista japonesa muda e beneficia as mulheres: sobram vagas para elas no Japão. Alteração na lei trabalhista permitirá que as brasileiras trabalhem a noite e disputem o mercado de trabalho com os homens. Mas elas ganham menos para exercer a mesma função. Na educação, o governo brasileiro começa a reconhecer escolas brasileiras no país, das quais passa-se a exigir normas de funcionamento. São 224.299 brasileiros vivendo no arquipélago
2000 - Governo japonês reformula a Lei de Controle da Entrada e Saída do País, e o prazo de reentrada no arquipélago é estendido de um para três anos. A internet é popularizada na comunidade brasileira no Japão
2001 - O ministro da Saúde do Brasil, José Serra visita o arquipélago para lançar o Programa de Assistência e Prevenção das DST / HIV / AIDS, voltado para os brasileiros no país
2002 - Luiz Inácio Lula da Silva é eleito presidente do Brasil. Seleção brasileira conquista o Pentacampeonato em Yokohama. Jornal Tudo Bem publica um especial sobre brasileiros fora das fábricas. Eles se tornaram bem-sucedidos no Japão em áreas tão diversas quanto comércio, importação e exportação e serviços
2003 - Jornal Tudo Bem publica uma pesquisa do Ciate, que revela que maioria dos nikkeis entrevistados ( 57,5%) querem morar definitivamente no Japão. Eles alegam que se adaptaram ao país e não teriam emprego no Brasil. Dos 1.578 entrevistados, 49,6% mora o Japão há mais de sete anos. É realizada a primeira edição da Expobusiness, primeira feira de negócios da comunidade brasileira no Japão
2005 - Número de brasileiros no Japão ultrapassa 300 mil. Pesquisa do governo japonês indica que 49,8% deles já moravam há mais de sete anos no País. Presidente Luiz Inácio Lula da Silva visita o Japão e discute, com o primeiro-ministro Junichiro Koizumi, a possibilidade de um acordo previdenciário entre os países em benefício dos dekasseguis. É lançada a revista Gambare!, pioneira no segmento de trabalho e lazer no arquipélago
2006 - Mais de 50 mil brasileiros já tiraram o visto permanente no Japão. O número de brasileiros no Japão chega a 312.980. No mesmo ano, estatística revela que 140 brasileiros se casam todos os meses nos Consulados. O Ministério da Justiça do Japão passa a exigir atestado de antecedentes criminais para nikkeis que desejam tirar visto de longa permanência
2007 - A comunidade brasileira no Japão chega a 316.967 pessoas. Destes, 63,6 mil brasileiros já têm visto permanente. Depois dos chineses, os brasileiros são os trabalhadores que mais dão entrada no visto permanente
2008 - No Japão e no Brasil, acontecem as comemorações do Centenário da Imigração Japonesa ao Brasil. Cada vez mais brasileiros estão se integrando ao Japão. A crise econômica mundial afeta os empregos nas fábricas japonesas
Publicado originalmente no site do jornal Tudo Bem em 25/10/2008.

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