O telefone toca:

– ”Aí, mano, tem trampo aí?”

O tantousha do outro lado da linha tem duas opções. Se a empreiteira estiver “desesperada” por um funcionário, o “mano” pode ser até chamado para a entrevista. Mas se ele tiver outro candidato mais qualificado na mira, vai preferir o concorrente. Como se vê, o processo de seleção para uma vaga de trabalho começa já na primeira ligação que o candidato faz. Entrevista de trabalho não é fácil para ninguém. Mas os jovens com até cerca de 25 anos têm enfrentado enorme dificuldade devido à postura que adotam durante a entrevista. O tantousha Akira Kawasaki, da Sun Family, chamou um desses “mano” para entrevista. Mal chegou, o candidato sentou-se no sofá e esticou os dois braços, sem tirar o boné. “Eu disse que não havia gostado da postura dele, mas que iria dar uma chance”, diz. O candidato não durou dois meses na fábrica de catalisador de carros, no setor de autopeças.

As cenas abaixo são reais e mais comuns do que se pensa:

1 – O jovem só fala gíria, aparece vestido de camiseta regata, piercing à mostra e não tira o boné

2 – Namorados ficam se beijando na sala de espera

3 – O candidato usa bermuda e chinelo e está com cara de sono. Senta de forma relaxada na hora da entrevista e segura uma lata de cerveja ou de refrigerante

4 – A candidata usa minissaia, blusa com decote, brincos grandes e maquiagem carregada

Em qualquer situação, seja no Brasil ou no Japão, os candidatos acima estão eliminados. Teoricamente, quem tem até 25 anos teria enorme vantagem e facilidade para conseguir um emprego. A entrevista de trabalho seria só para carimbar sua vaga. Mesmo assim, há aqueles que conseguem perder o posto por não causarem uma boa impressão. “Felizmente ainda é uma minoria que é eliminada de cara”, afirma Auro Kotsubo, chefe do departamento de operações da Inter Career.

Em uma entrevista de trabalho, a primeira impressão é a que fica. Use o bom senso!

Conversa Básica

Onamae wo oshietekudasai.
Seu nome por favor

Carlos desu. Yoroshiku onegai shimasu.
Meu nome é Carlos

Juusho wa dokodesuka.
Onde mora?

Ota-shi ni sundeimasu.
Moro em Ota

Nyuusha shitara nanide kayoimasuka?
Em caso de contratação, qual o meio de transporte?

Jitensha de kayoimasu.
Irei de bicicleta

Nihon ni kite donokurai desuka?
Há quanto tempo está no Japão?

Gonen desu.
Cinco anos

Nihongo no kaiwa dekimasuka?
Consegue falar o idioma japonês?

Kantanna kaiwa wa dekimasu.
Consigo falar de forma simples

Naze tousha ni ouboshimashitaka?
Qual a razão para escolher esta empresa?

Shigoto no naiyou ni kiyomi ga arimashita.
Pelo fato do serviço me interessar

Nanika shikakuwa mottemasuka?
Tem algum tipo de título?

Nihongo Nouryoku Kentei Shiken yon kyuu wo motteimasu.
Tenho o nível 4 de proficiência de língua japonesa

Maratona da entrevista

Como vencer o jogo da contratação

No telefone
O primeiro contato entre o candidato e a empreiteira é por telefone. Não fale gírias. Primeiro diga o seu nome e o objetivo da ligação com vocabulário formal

Roupa adequada
Com o verão, candidatos chegam no dia da entrevista com os trajes totalmente errados. Chinelo, óculos escuros, camiseta regata, bermuda, boné ou minissaia vão somando pontos negativos durante a seleção. Para as mulheres, alguns detalhes fazem enorme diferença: não comparecer com blusas decotadas, maquiagem pesada, brincos grandes, perfumes fortes e muitas bijuterias. Assim como no Brasil, o melhor é vestir calça, camisa e sapato sociais. Camiseta, calça jeans e tênis também acabam sendo aceitos pelos recrutadores

Documentação
Normalmente, é preciso preencher uma ficha na empreiteira. Leve sempre os documentos, como passaporte, registro de estrangeiro e carta de motorista do Japão (se tiver). Não esqueça de ter sempre em mente o endereço completo e telefone para contato, além de informações sobre os serviços anteriores, como um currículo pré-preparado. Deslizes do tipo “não sei meu endereço” prejudicam já no primeiro contato

Currículo
Na empreiteira, o candidato precisa preencher um currículo, informando o nome, data de nascimento, endereço, históricos escolar e profissional, licenças ou qualificações como carteira de empilhadeira, tempo de estadia no Japão e tipo de visto. Por falta de informação ou por nervosismo, algumas pessoas não sabem escrever corretamente o documento. Por meio da letra, os entrevistadores também avaliam o potencial do candidato, considerando grave os erros ortográficos

Postura
Enquanto espera pela entrevista, não sente de maneira relaxada e, preferencialmente, não cruze as pernas. Se estiver em pé, não apóie os pés nas paredes. “Alguns candidatos chegam com lata de cerveja na mão”, afirma Paulo Kakitsuka, de Ibaraki, que contrata para o ramo de eletrônicos. Para os namorados que forem concorrer para a mesma vaga, recomenda-se não ficar demonstrando carinho como beijo ou abraço. “Esse é um ambiente profissional e não uma loja onde o cliente sempre tem razão”, reforça

Entrevista
Uma empreiteira relata que um candidato chegou para a entrevista com uma lata de cerveja na mão. Foi reprovado na hora. Durante a conversa, espere o entrevistador explicar quais são as condições do trabalho antes de perguntar. A melhor tática é dizer que você não se importa em fazer horas extras se for preciso. Com isso, mostra interesse no trabalho. Fale claramente, olhando para ele. Não reclame dos trabalhos anteriores e nem fique criticando as fases da seleção.

Teste
No ramo de eletrônicos, ter coordenação motora é fundamental para o trabalho. Por causa disso, são feitos testes chamados psicotécnicos, a fim de avaliar o raciocínio do candidato. Uma das avaliações consiste em encontrar 100 letras determinadas pelo entrevistador de um total de 360 espalhadas ordenadamente numa folha. Nesse teste, o candidato pode errar somente 12 vezes. Em outro teste, a pessoa precisa mostrar rapidez com as mãos, manuseando um aparelho para parafusar 29 pinos no tempo de 1 minuto e 15 segundos

Japonês
A grande diferença entre a seleção feita no Brasil e no Japão é o domínio da língua japonesa. Quanto maior o domínio, melhores empregos e salários. Em momento de economia aquecida, como agora, os requisitos para contratação caem. Mas em alguns casos, há testes e entrevistas com diretores de fábricas que são feitos em japonês. Nessas horas, saber o idioma e demonstrar esforço no trabalho contam para a contratação. De qualquer forma, recomenda-se que o candidato saiba o mínimo da língua. Geralmente as perguntas se referem sobre onde trabalhou, se tem família, se já trabalhou na linha de montagem etc.

Dicas

Antes da entrevista
- Chegue até 10 minutos antes da hora marcada. Se chegar muito cedo, pode dar impressão de ansiedade
- Se ocorrer algum problema, ligue para o responsável para apresentar uma satisfação
- Enquanto espera pela entrevista, o comportamento do candidato já está sendo avaliado. Por isso, desligue o telefone celular, não sente de forma relaxada na sala de espera, não fume e nem beba, não fique mascando chiclete ou chupando balas

Hora da entrevista
- Ao entrar, bata duas vezes na porta
- Entre quando ouvir `douzo` do entrevistador
- Cumprimente o entrevistador abaixando a cabeça e fale Shitsureishimasu (com licença)
- Fique do lado da cadeira e se apresente dizendo primeiro o sobrenome e depois o nome e complete a frase com desu, Yoroshikuonegaishimasu (Meu nome 铦, Muito prazer.)
- O entrevistador deve convidar o candidato para se sentar. Nesse momento, fale novamente Shitsureishimasu
- Encerrada a entrevista, levante-se e fique do lado da cadeira. Depois fale Arigatou gozaimashita e abaixe a cabeça.
- Antes de fechar a porta da sala para ir embora, olhando na direção do entrevistador, abaixe novamente a cabeça e retire-se do local

Minha entrevista…

Estou no Japão há dois anos e mudei seis vezes de fábrica porque não era o que esperava.

Também levei duas respostas negativas em entrevista de trabalho, mas não disseram o motivo.

Já me falaram que usar brincos grandes não ajuda na hora da entrevista.

Acho que o importante para conseguir uma oportunidade é ser responsável, ter assiduidade e gostar de fazer hora extra
Wanessa Iano, 19 anos, mora em Saitama

Já trabalhei em três fábricas e um hotel.

Sempre tive respostas positivas nas entrevistas.

Mas houve problemas no último local porque eu não abotoava o uniforme corretamente.

O pessoal também pediu para tirar os brincos. Aceitei, mas pedi demissão porque ganhava pouco.

Na atual fábrica, não tenho dificuldade e trabalho com os brincos
Alex Sandro Tanoue, 23 anos, mora em Saitama